Nosso amor

Nosso amor, enquanto seres humanos em um corpo de carne, está sujeito a falhas, na medida oposta ao quanto sujeitamos nosso corpo à racionalidade cordial, porém nosso amor não precisa estar contaminado, incorrigível e doente, pois através da cultura, especialmente da neotestamentária, podemos pautar nosso conceito de amor em parâmetros firmes, aperfeiçoando nossa prática, cada dia mais humana (e ao mesmo tempo, celeste), a exemplo de quem primeiro nos amou.

Anúncios

Livrai-nos do mal que não queremos praticar

Que tal se nós, eu, você e quem mais quiser, focássemos mais no mal que parece vir de dentro, da gente mesmo, do que no mal que parece vir de fora, dos outros? Já parou para notar o quanto nos preocupamos, o quanto nos aplicamos em evitar o mal? “Livrai-nos do mal” talvez nunca tenha feito tanto sentido quanto hoje em dia, mas será que é com o mal de fora que mais devemos nos preocupar? São muitas as maldades, os perigos, os enganos que a “modernidade” trouxe, com certeza; contudo, é a maldade dos outros que macula a nossa consciência, que contamina nossas emoções, que nos diminui enquanto seres humanos? Definitivamente, não. Pode até ser que a fraqueza ou a maldade do outro se torne numa tentação para nós, mas ainda teremos escolha, sempre. Estamos todos aprendendo a andar, especialmente aqueles de nós que se esforçam por acertar, ou melhor, se acertar.

Penso que as palavras imediatamente anteriores ao “livrai-nos do mal” ensinado pelo Mestre explicam de qual mal ele provavelmente estaria falando: não o mal que pode ser sofrido, porque quanto a este, seus discípulos foram alertados de que os alcançaria (daí o pedido de perdão conforme temos perdoado), mas sim do mal que todos, sem exceção, somos capazes de praticar, o qual atua para a condenação de seus adictos (daí o pedido para não cair em tentação), pois qual dos excessos e desvios de conduta não é destrutivo? E se é destrutivo, prejudica primeiro quem o pratica (o qual pouco se preserva ou ama), depois prejudica quem cerca seu praticante (o mesmo que pouco preservará ou amará seu próximo).

Por tudo isto, que a sujeição proposta pelo Mestre não é aos que podem destruir o corpo e depois nada mais podem fazer, porque não é do outro (como Adão de Eva, e Eva da Serpente) que cada um dará contas, mas de si ao que pode destruir tanto o corpo quanto o seu interior.

“Não vos admireis quanto a isso, pois está chegando a hora em que todos os que repousam nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida, e aqueles que tiverem praticado o mal, para a ressurreição da condenação.” João 5:28-29

À frente, ao lado e atrás

À frente o Criador quer dizer que nos importaremos com as coisas do alto, que nos aplicaremos em desenvolver as virtudes que Ele nos oferece, como a paciência, a generosidade, a sinceridade, a pureza, entre outras, as quais frutificam salvação tanto para nós, quanto para os de fora; quer dizer “façamos o bem a todos” (Gálatas 6) através destas virtudes, como povo “zeloso de boas [ações]” (Tito 2), o que não possui restrição de lugar ou recursos, mas apenas da consciência de cada um, que é sacerdote de si perante o Cordeiro, o Sumo Sacerdote que recebe nossas súplicas, intercessões e confissões, olhando pelo nosso crescimento no conhecimento da verdade.

Ao lado as pessoas, quer dizer que não endeusaremos ser humano algum, que perdoados de nossas maldades e ofensas, perdoaremos quem nos tenha feito mal e ofendido; que evitaremos nos ensoberbecer em relação a qualquer um, e que nos esforçaremos para ter compaixão de todos, da mesma forma que dependemos constantemente da compaixão do Criador.

E atrás o dinheiro (ou os recursos desta sociedade) quer dizer que não trabalharemos apenas pela comida que perece, mas pela que não perece (através da prática da justiça), não permitindo que o trabalho secular tome por completo o nosso tempo e energias, entendendo que, quer por emprego, quer por conta própria, não pertencemos a esta sociedade; que fomos libertos da escravidão da desobediência, “feitos servos da justiça” para que apresentemos os membros do nosso corpo, “como instrumentos de justiça” (Romanos 6), pois o Mestre disse que “quem está em mim, e eu nele, este dá muito fruto, porque sem mim nada podereis fazer” (João 15).