Males da modernidade: a fraqueza da independência

Muito antigamente, antes da revolução industrial, éramos menos independentes, porém bem mais fortes. Desde então, nos foi dito repetidamente que a independência (ou morte) vale a pena. Será?

Pensando bem, desde o princípio, os filhos dependiam dos pais para aprenderem um ofício, os pais dependiam dos filhos para sobreviver à idade avançada, as mulheres dependiam dos homens para terem um lar, os homens dependiam da mulher para terem filhos, etc. Toda dependência ainda é um sustentáculo de força, uma definição de papel, um manifesto de autoridade. O senso profundamente humano de contínua permanência, não apenas dos dados genéticos, mas da cultura enquanto selo de superação e crescimento individuais, realmente valiosa, transmissível por meio dos vínculos entre as pessoas, foi perdido no empoderamento de grupos que dividem o núcleo social mais importante, enfraquecendo suas interdependências naturais.

Noutras palavras, as instituições, os movimentos e as revoluções tomaram, de assalto ou sutilmente, o poder das famílias, que agora dependem terrivelmente e tão somente de estranhos para existirem.

Obviamente que apenas existem, tratando-se meramente da extensão psicossocial dos grupos, sejam estatais ou os privados, os quais regem inúmeros aspectos da vida cidadã, quase autômata, regrada a pressões e valores desumanos. Ao passo que, as famílias de verdade, tinham consigo alguns traços do paraíso moderado, abundante em afeto e respeito, que permeava toda a parentela e os ancestrais em suas ações, separadas o bastante das forças centrais de domínio, das bestas, as quais regem sem dó, amontoados disformes de pessoas que não podem, senão acompanhar a maioria, sem pensar no que poderiam, se assumissem todo o dever.

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Males da modernidade: a externalização da importância

Desde a revolução industrial, temos sido habituados a ver nas novidades engenhadas e fabricadas, somente os privilégios trazidos por um determinado produto, nunca os vícios ou prejuízos que podem causar às maiorias.

Imaginemos algo que torne uniforme o pensamento das pessoas, que determine quem ou quais assuntos são importantes, quais comportamentos são aceitáveis, etc. Não estou falando de um deus ou guru religioso, estou falando da televisão.

E assim como o ópio entorpeceu a muitos no século dezenove, aprisionando seus adictos na ilusão do artifício, tornando as mentes fracas, ainda mais fracas; e claro, tornando as fortes mais facilmente dominantes, a televisão possui efeito psicossocial muito parecido, mediante a externalização da importância.

Então, ao redor de uma televisão, importa cada vez menos como foi o seu dia, cada vez mais como foi o dia daquela pessoa pública; importa cada vez menos a sua conquista, cada vez mais a conquista da personagem ou da celebridade; importam cada vez menos seus planos, seus sofrimentos, suas crenças, suas alegrias. Tudo vem de lá, de fora, então você sabe o que aconteceu no Japão ou na Antártida, mas não sabe o que se passa com a pessoa ao lado.

Não me admira que falte assunto, ou que o assunto sejam os outros, e não nós. Não me admira que consigamos pouco, enquanto os outros, os que se escutam, os que se ajudam, os que se reúnem, que planejam e trabalham juntos, consigam tanto. Não me admira que haja tanta depressão, tanto abandono, tanto desengano, tanta maldade: as famílias estão deixando de agir como famílias, estão trocando a fruta real da participação positiva, pelo produto aromatizado artificialmente do convívio alienado.

Talvez você não precise de horas conversando com quem está do seu lado, talvez só precise demonstrar verdadeiro interesse por aquilo que é importante para o outro, talvez redescubra o que é importante para o outro e talvez ninguém se sinta mais só em meio aos seus. Tenho feito a minha parte, e você, tem feito a sua?