Os laços entre o egoísmo e a incredulidade

Quando alguém declara não crer em qualquer forma de vida além desta, quando argumenta que só existe vida por causa do corpo, ou que da morte ninguém jamais retornou (o que não é verdade), e assim por diante, podem surgir, da parte de quem ouve, as seguintes perguntas: “mas e quanto aos bebês que viveram por dois ou três anos, e faleceram? Sendo esta a única vida, então foram desprivilegiados? E quanto aos que cedo foram mortos ou fisicamente lesados para toda a vida, quer por outra pessoa, quer pela ambição dos grupos de pessoas, mereciam este fim? Se a única justiça da qual podemos esperar é a terrena, como serão recompensados os que partiram tão injustamente? E não havendo justiça fora desta vida, então compactuamos na prática com as desigualdades sociais, com os enriquecimentos ilícitos, com as regalias e as misérias, ambas absurdas, do país onde moramos?”

Não há quem possa responder honestamente a estas perguntas sem considerar a justiça eterna. Deste ponto em diante, percebe-se que a incredulidade está diretamente ligada com o egoísmo, com a vida mais ou menos confortável, mais ou menos abastada, mais ou menos ocupada, mais ou menos longa, que vivemos lado a lado com os extremos absurdos já nomeados. Ou seja, torna-se fácil, mas igualmente sem alma, “a recusa” da justiça aos que passam fome, enquanto se está farto; “a recusa” da justiça aos que faleceram cedo, enquanto se tem saúde. Enquanto “no seu lugar, na sua pele” a vida até faz algum sentido, mesmo não crendo em nada além, “no lugar de muitos outros, na pele de quem sofre o pior deste mundo” a vida não faz sentido. Portanto, a incredulidade rebelde ou não, o ceticismo obstinado ou não, possui por plano de fundo a autopiedade (de ocorridos bem ruins ou de escolhas que ainda causam sofrimento), a insubmissão (de autoridade exercida injustamente) e a conformidade com o mal apresentado, ensinado, difundido e reforçado pela sociedade.

Como esperar por um “plano melhor” enquanto o atual se mostra ótimo, enquanto quaisquer abstenções, senão recompensas, são experimentadas? Desta maneira, como ir para o céu, negando-o por tabela ao descrer do tártaro, vivendo como se nem um e nem outro existissem? O mesmo se aplica aos que professam o ressurrecto e assunto aos céus, mas que, não apenas por doutrina e sim por apego ao mundo, descreem que podem ir, ainda em vida, para o mesmo lugar aonde ele está.

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Parábola dos dois irmãos

Um pai precisou viajar por dois anos, deixando a seus dois filhos jovens, todos os recursos necessários para aprenderem um ofício, além de instruções claras a respeito de como deveriam se ocupar, sob a promessa de recompensas na presença do pai, incluindo passeios. Então um deles, aproveitando a ausência do pai, ocupou-se de festas, bebedeiras, orgias, e brigas por diversão. O outro, sabendo que o pai a nada estaria alheio, ocupou-se de seguir-lhe as instruções, agindo da mesma forma que agia na frente do seu genitor.

Retornando da viagem, informado por seus amigos que moravam por ali, ao obediente trouxe um desejável presente, combinando com ele uma viagem a dois. Ao desobediente, privou-o de todos os recursos até que completasse, por sua conta, o aprendizado necessário.

Portanto, quando ouvires falar de arrependimento e purificação, de conversão e abstenção do mal, entenda que não se trata de religiosidade, moralismo ou bitolação, mas de escolhas, da decisão pela obediência às Sagradas Letras que permitem ao Pai estar com seu filho, e ajudá-lo a superar limitações.

“E sabeis que procedemos com cada um de vós como um pai com seus filhos: nós vos temos exortado, estimulado, conjurado a vos comportardes de maneira digna de YHWH, que vos chama ao seu Reino e à sua glória.” 1 Tessalonicenses 2:11-12

Livrai-nos do mal que não queremos praticar

Que tal se nós, eu, você e quem mais quiser, focássemos mais no mal que parece vir de dentro, da gente mesmo, do que no mal que parece vir de fora, dos outros? Já parou para notar o quanto nos preocupamos, o quanto nos aplicamos em evitar o mal? “Livrai-nos do mal” talvez nunca tenha feito tanto sentido quanto hoje em dia, mas será que é com o mal de fora que mais devemos nos preocupar? São muitas as maldades, os perigos, os enganos que a “modernidade” trouxe, com certeza; contudo, é a maldade dos outros que macula a nossa consciência, que contamina nossas emoções, que nos diminui enquanto seres humanos? Definitivamente, não. Pode até ser que a fraqueza ou a maldade do outro se torne numa tentação para nós, mas ainda teremos escolha, sempre. Estamos todos aprendendo a andar, especialmente aqueles de nós que se esforçam por acertar, ou melhor, se acertar.

Penso que as palavras imediatamente anteriores ao “livrai-nos do mal” ensinado pelo Mestre explicam de qual mal ele provavelmente estaria falando: não o mal que pode ser sofrido, porque quanto a este, seus discípulos foram alertados de que os alcançaria (daí o pedido de perdão conforme temos perdoado), mas sim do mal que todos, sem exceção, somos capazes de praticar, o qual atua para a condenação de seus adictos (daí o pedido para não cair em tentação), pois qual dos excessos e desvios de conduta não é destrutivo? E se é destrutivo, prejudica primeiro quem o pratica (o qual pouco se preserva ou ama), depois prejudica quem cerca seu praticante (o mesmo que pouco preservará ou amará seu próximo).

Por tudo isto, que a sujeição proposta pelo Mestre não é aos que podem destruir o corpo e depois nada mais podem fazer, porque não é do outro (como Adão de Eva, e Eva da Serpente) que cada um dará contas, mas de si ao que pode destruir tanto o corpo quanto o seu interior.

“Não vos admireis quanto a isso, pois está chegando a hora em que todos os que repousam nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida, e aqueles que tiverem praticado o mal, para a ressurreição da condenação.” João 5:28-29