Teste de corrupção

Você se considera uma pessoa íntegra? Provavelmente sim, e provavelmente não transgride as leis do seu país. Mesmo assim, há um meio bastante assertivo de descobrir se é inclinada à corrupção, se em face das pressões, cede ou mantém a sua moral.

Quando você comete um erro (de qualquer tamanho), e toma consciência de que foi um erro, admite-o (ainda que para si mesmo) ou, justifica-o? Quando você é “pego” cometendo um erro, e sabe que agiu erradamente, admite que errou? E quando você sabe que está para cometer um erro, justifica-se antecipadamente ou, controla-se?

Caso tenha respondido positivamente a pelo menos uma das perguntas acima, é interessante cultivar e exercitar a responsabilização. Claro que há diferença entre se justificar e se explicar: tudo que fazemos tem um porquê conhecido ou não, e a explicação nunca acrescenta resistência ao nobre gesto de assumir; já a justificação é sem sentido, pois nada dito desfaz um erro ou o torna menos errado. E se os erros são professores, com a tentativa de os justificar, a lição é anulada, e o crescimento como pessoa é dificultado, contribuindo para a “cauterização da consciência” em termos paulinos, tornando a convivência com tal pessoa, no mínimo dolorosa.

Para o cultivo e exercício da responsabilização, certamente você precisará de sol, que é o compromisso íntimo de não mentir. Entretanto, somos diferentes, e temos “mecanismos” bem diferentes de reação, geralmente “engenhados” na infância, que podem ser reconstruídos. Acredito que pessoas muito exigentes, competitivas, envergonhadas e orgulhosas, precisarão descobrir seus porquês para superar a limitação moral revelada no presente teste.

Anúncios

Males da modernidade: a fraqueza da independência

Muito antigamente, antes da revolução industrial, éramos menos independentes, porém bem mais fortes. Desde então, nos foi dito repetidamente que a independência (ou morte) vale a pena. Será?

Pensando bem, desde o princípio, os filhos dependiam dos pais para aprenderem um ofício, os pais dependiam dos filhos para sobreviver à idade avançada, as mulheres dependiam dos homens para terem um lar, os homens dependiam da mulher para terem filhos, etc. Toda dependência ainda é um sustentáculo de força, uma definição de papel, um manifesto de autoridade. O senso profundamente humano de contínua permanência, não apenas dos dados genéticos, mas da cultura enquanto selo de superação e crescimento individuais, realmente valiosa, transmissível por meio dos vínculos entre as pessoas, foi perdido no empoderamento de grupos que dividem o núcleo social mais importante, enfraquecendo suas interdependências naturais.

Noutras palavras, as instituições, os movimentos e as revoluções tomaram, de assalto ou sutilmente, o poder das famílias, que agora dependem terrivelmente e tão somente de estranhos para existirem.

Obviamente que apenas existem, tratando-se meramente da extensão psicossocial dos grupos, sejam estatais ou os privados, os quais regem inúmeros aspectos da vida cidadã, quase autômata, regrada a pressões e valores desumanos. Ao passo que, as famílias de verdade, tinham consigo alguns traços do paraíso moderado, abundante em afeto e respeito, que permeava toda a parentela e os ancestrais em suas ações, separadas o bastante das forças centrais de domínio, das bestas, as quais regem sem dó, amontoados disformes de pessoas que não podem, senão acompanhar a maioria, sem pensar no que poderiam, se assumissem todo o dever.

Os laços entre o egoísmo e a incredulidade

Quando alguém declara não crer em qualquer forma de vida além desta, quando argumenta que só existe vida por causa do corpo, ou que da morte ninguém jamais retornou (o que não é verdade), e assim por diante, podem surgir, da parte de quem ouve, as seguintes perguntas: “mas e quanto aos bebês que viveram por dois ou três anos, e faleceram? Sendo esta a única vida, então foram desprivilegiados? E quanto aos que cedo foram mortos ou fisicamente lesados para toda a vida, quer por outra pessoa, quer pela ambição dos grupos de pessoas, mereciam este fim? Se a única justiça da qual podemos esperar é a terrena, como serão recompensados os que partiram tão injustamente? E não havendo justiça fora desta vida, então compactuamos na prática com as desigualdades sociais, com os enriquecimentos ilícitos, com as regalias e as misérias, ambas absurdas, do país onde moramos?”

Não há quem possa responder honestamente a estas perguntas sem considerar a justiça eterna. Deste ponto em diante, percebe-se que a incredulidade está diretamente ligada com o egoísmo, com a vida mais ou menos confortável, mais ou menos abastada, mais ou menos ocupada, mais ou menos longa, que vivemos lado a lado com os extremos absurdos já nomeados. Ou seja, torna-se fácil, mas igualmente sem alma, “a recusa” da justiça aos que passam fome, enquanto se está farto; “a recusa” da justiça aos que faleceram cedo, enquanto se tem saúde. Enquanto “no seu lugar, na sua pele” a vida até faz algum sentido, mesmo não crendo em nada além, “no lugar de muitos outros, na pele de quem sofre o pior deste mundo” a vida não faz sentido. Portanto, a incredulidade rebelde ou não, o ceticismo obstinado ou não, possui por plano de fundo a autopiedade (de ocorridos bem ruins ou de escolhas que ainda causam sofrimento), a insubmissão (de autoridade exercida injustamente) e a conformidade com o mal apresentado, ensinado, difundido e reforçado pela sociedade.

Como esperar por um “plano melhor” enquanto o atual se mostra ótimo, enquanto quaisquer abstenções, senão recompensas, são experimentadas? Desta maneira, como ir para o céu, negando-o por tabela ao descrer do tártaro, vivendo como se nem um e nem outro existissem? O mesmo se aplica aos que professam o ressurrecto e assunto aos céus, mas que, não apenas por doutrina e sim por apego ao mundo, descreem que podem ir, ainda em vida, para o mesmo lugar aonde ele está.