Fique mais um dia

Eu sei o que pretendes, não o que te disseram, nem o que te fizeram, muito menos a dor que sentes. Mas se tua vida tinha um motivo, foi perdido. E este é ponto mais importante: sem aquele motivo, tua vida pode recomeçar por completo! Eu sei que não sentes esta vontade de superar e construir. Com certeza estás sem forças, pois teu combate vem sendo constante: um combate contra si, um medo enorme de sentir!

Tens razão: quem se importa? O mundo gira, as pessoas correm todo o tempo atrás do vento e, em algumas semanas, esquecem da sua morte. Nada vai parar por isso. Acho até que já esqueceram de nós, porque temos vivido como sombras. Perder-se nenhum consolo trará. A vida parece mesmo vazia, por isso a podemos dar um sentido, um conteúdo da nossa escolha, um de verdade, que não se desfaz como a matéria.

A resposta se esconde na pergunta, assim como do veneno se faz o soro. Desistir nunca foi errado, é apenas uma postura, um meio pelo qual mudamos a direção, para tentarmos uma outra. Tu procuras uma ponte firme para cruzar, uma trilha com destino bem definido, e a morte, parece ser este caminho. Porém, temos algo que merece ser notado: e se a morte, esta partida imediata e sem remédio, for um caminho errado, como os outros: como voltar? E se deixar de existir, for pior do que existir, doendo ainda mais? De fato, a realidade em que vivemos, muitas vezes se apresenta cruel. Por isso, vamos nos tornar cruéis com nós mesmos? Vamos deixar que a sociedade nos empurre silenciosa e indiretamente para o abismo? Vamos deixar que os poderes e os interesses mundanos digam o quanto valemos ou o quanto somos úteis?

Como eu disse, não sei nada sobre ti, contudo se o teu caminho parece sem saída, é porque também não sabes; talvez porque espere que alguém te entenda: um amigo, um parente, ausentes ou não. Mas como eu poderia te entender, se nem tu o fazes? Qual é o valor que esperas receber, se tu ainda não sabes o teu? Se partisses agora, seria como jogar fora um presente sem antes abri-lo!

Lembres que a dor é apenas um aviso, um alerta, e não o teu problema. E muito menos o que sentes é o seu problema, mas sim o que temes sentir, o que te proíbes sem notar, o que perdeste sem nunca teres tido de fato e, o que perdeste, mas nunca foi teu. E nada é próprio verdadeiramente, tudo é efêmero e passageiro, salvo exatamente o que pretendes tirar de si, a única coisa perfeitamente sua: a sua vida. Fique mais um dia!

Criação em 23 de agosto de 2006, reedição em 9 de setembro de 2018.

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