Somos um apanhado de fingimentos?

Para responder a esta pergunta ou questionar tal afirmação, penso que seja preciso rever o que somos exatamente. Antes de tudo, animais, e esta condição mais fundamental nos tem sido repressa de forma desproporcional em nome do convívio social, através da razão, a nossa segunda condição mais fundamental. Cultura não é fingimento, mas a repressora cultura ocidental induz os seus filhos ao fingimento, ao comportamento socialmente aceitável, ao senso comum que normaliza e neutraliza as personalidades, e talvez seja este o maior desafio do homem chamado moderno: descobrir-se e ser exatamente quem se é, e esta não é uma tarefa nada fácil, porque em torno de quem se é, há uma carapaça do que os outros esperam que sejamos, desde os pais, até os amigos ou quem quer que seja; há vozes de comando e conceitos de valor ou comportamento adequados que podem tornar esta a missão de uma vida.

E digo mais, máscaras são naturais, e para defender esta minha forma de pensar, exemplifico que você não age da mesma forma com um desconhecido do que com um conhecido, não age da mesma forma com um adulto do que com uma criança, e pode até falar com seu cãozinho, mas não tratará seu cônjuge daquela forma que um animal requer. Óbvio que máscaras, neste sentido, são mais como filtros usados para respeitar as naturezas do outro ou da situação.

Mas com a naturalização da mentira e a supervalorização da aceitação alheia, de fato os fingimentos se tornaram uma espécie de pus social, uma reação em cadeia que só pode ser quebrada com a força de escolhas feitas para dentro, como a de não mentir (nem para si mesmo), e fazer da decisão tomada um exercício cotidiano. Em suma, é comum a todos o querer ser amado e a melhor forma de conseguir esta façanha é sendo exatamente quem se é, e ainda que as emoções (ou os pensamentos mais pessoais) tenham a aparência de fingimento serão aparência para quem vê de fora, porque quem vê de dentro sabe que mentir para si prejudica apenas ao próprio enganado (e que tamanha sandice passar a si mesmo para trás), que acaba descobrindo não haver para onde fugir da própria consciência.

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