Culto ou adoração

Pesquisando pelo termo “culto” na bíblia mais costumeiramente usada (a versão do padre João Ferreira de Almeida, que viveu no século décimo sexto), encontramos seis ocorrências, das quais quatro estão realmente no texto, e duas na epígrafe (que não pertencem ao texto). Das quatro, duas atribuem a prática do culto à aliança caduca (Romanos 9:4, Hebreus 9:1). E as outras duas (Romanos 12:1, Colossenses 2:18) condenam o culto físico (que a exemplo das duas primeiras, pertence à aliança superada pelo Cordeiro). Das duas que restam (aquelas em que o termo “culto” não está no texto, mas na epígrafe), há uma maliciosamente usada para sugerir a muitos que existe “base bíblica” para a prática (antiquada) do culto (1 Coríntios 14:26), denominada suspeitamente de “A necessidade de ordem no culto”. O texto fala de eventuais ajuntamentos, não citando frequência (e nem ordenando o fazê-lo), mas chamando à atenção para os cuidados em caso de os irmãos se reunirem, considerando que ali todos igualmente falariam algo (muito diferente do modelo mitráico atual, que consiste na “crucificada” figura sacerdotal, e em repetidas “aulas” de clérigos para leigos). Pode ser também que em algumas versões as palavras “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás” citadas pelo Mestre (Mateus 4:10, Deuteronômio 6:13) estejam assim “Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto” erradamente (nas versões mais antigas, como a bíblia de Genebra [1599] e na bíblia do rei Jaime [1611] a expressão usada é a de serviço, e na bíblia judaica ortodoxa a expressão usada é de temor, obediência).

Contudo, muitos (clérigos) ainda podem usar trechos sobre “congregação” para conquistar seguidores para si (Atos 20:30), ainda que neguem isto da boca para fora, o praticam em suas ações quase diárias. A carta aos Hebreus é um tratado sobre as duas alianças (e é este o questionamento que no lugar da “base bíblica” ou do “é bíblico” precisamos adotar, se é da aliança em vigor, conquistada por alto preço, ou da caduca), e no seu décimo capítulo (que assim como as epígrafes, capítulos não existem no texto), quando fala “não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns” na versão do “Almeida” de 2009, fala “não se esquecendo da comunhão que temos entre nós” na versão de “Genebra” de 1599. Em se tratando de trechos, já se nota uma grande diferença no propósito e lógica de comunhão tanto daquela época, quanto na que integra o contexto da carta (que é a comunhão da fé e do amor daqueles que creram, conforme termina o citado capítulo). E no décimo quarto capítulo da primeira carta de Paulo aos Coríntios, quando fala “se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem línguas estranhas, e entrarem incautos ou infiéis, não dirão, porventura, que estais loucos?” na versão do “Almeida” de 2009 (aqui o padre usou a expressão vinda do grego “ekklesia” ou igreja, que originalmente eram as assembleias democráticas da antiga Grécia, realizadas em locais públicos, e por isto “chamados para fora” é a expressão que melhor traduz o significado da palavra grega), diferentemente fala “suponha que toda a congregação se reúna no mesmo lugar e você fale em outras línguas. Quando vêm os forasteiros ou incrédulos, não dirão que você é louco?” em algumas versões, entretanto, em todas as versões o sentido é de suposição, e de que não existia um lugar, mas pessoas em uma cidade com a mesma crença, que como condenou na mesma carta (no capítulo décimo primeiro), “nisto, porém, que vou dizer-vos, não vos louvo, porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque, antes de tudo, ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio” na versão do “Almeida” de 2009, e “nas instruções que agora vou dar a vocês, eu não posso elogiá-los, pois as suas reuniões de adoração fazem mais mal do que bem. Para começar, me contaram que nessas reuniões há grupos de pessoas que estão brigando, e eu creio que em parte isso é verdade” em algumas versões modernas da bíblia (que neste caso apresentam exatamente o contexto histórico desta narrativa). O fato era que as pessoas se reuniam não em um templo, mas em um lugar público (como um piquenique), o que não era proibido e nem ordenado por Paulo, mas pelo que chegou a nós e se pode ler, não tinha um modelo religioso, mas de reunião feita para ajuda mútua, e sem um “governante” (do contrário, Paulo ordenaria que obedecessem a este como líder em suas reuniões, e não haveria bagunça e nem a necessidade de sua carta).

O nosso Salvador foi e é o maior adorador que já existiu e existe. E qual o modelo de adoração que ele deixou? Com certeza não foi o da adoração em um lugar, pelo que ensinou “crê-me que a hora vem em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai” (em Jerusalém quer dizer, no templo [onde mantinham as tábuas da lei e a arca] ou no pátio do templo), e com certeza não foi o da adoração física (da aliança caduca, pois “o primeiro tinha ordenanças de culto divino e um santuário terrestre” como esclarecido na carta aos Hebreus), pelo que também (o nosso Mestre) ensinou que “a hora vem, e agora é em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura aos tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (ambos os trechos das boas novas segundo João). A adoração do bom Pastor acontecia em oculto, quando se retirava para falar ou orar ao Pai distante até dos discípulos, dando o exemplo do que ensinou, para que “quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você orar vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará. E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos” (o que mais uma vez, alguns dizem obedecer, mas desobedecem em suas ações). Repare que quando ensina como devemos fazer, fala no singular, por ser algo totalmente pessoal, íntimo e que não deve ser em público, independente da intenção. Todavia, o principal modelo de adoração que o Messias deixou para nós, foi o seu exemplo de serviço em amor, pelo que simplificou ao ensinar que “em tudo, façam aos outros, o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas” e que “vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (em algumas versões, no lugar de “pessoas importantes” está líderes).

Lendo as cartas de João (que foi bastante achegado ao Mestre), entenderemos que o amor ao próximo é a adoração, assim como lendo os livros das boas novas, entenderemos que se existem dois mandamentos (amar ao Pai de todo o coração, alma e forças e ao próximo com si mesmo), existem também somente duas formas de “pecado” ou injustiça, que é ir após outros deuses (nas ações, e não na intenção ou da boca para fora) e não fazer o bem aos de perto (Lucas 10:25-37). Infelizmente no primeiro caso, a religião fundada por Constantino e “reformada” por Lutero (o cristianismo) tem levado muitos após outros deuses, especialmente por causa do sincretismo da instituição católica (que quer dizer “universal” na nossa língua), que além de fazer pequenas adulterações no que foi escrito conforme o seu interesse hierárquico (adulterações das quais, as expressões transliteradas [não traduzidas] são que mais induzem ao erro, como ceia [que é apenas uma janta], batismo [que é imersão ou introdução], igreja [que já foi abordada], anjo [que é mensageiro], entre outras de conotação eclesiástica), incorporou as práticas religiosas de outros povos (como o hinduísmo no rosário ou terço, como o mitraísmo no culto para o fundo da caverna, como o solstício de inverno no natal, a adoração ao deus romano Jano no réveillon, e muito, mas muito mais mesmo) que são adoração a deuses estranhos (não na intenção do indivíduo, mas nas práticas adotadas pelo cristianismo e seus participantes). Enfim, mas não tarde, não poderíamos cultuar ao Criador de todas as coisas como os outros povos cultuam os seus deuses (quer com alimentos, quer com sacrifícios, quer com abstenção de alimentos [conforme Isaías 58], quer com cânticos, salmos [estes que podem aprimorar o nosso entendimento] ou danças [que alegram a alma de quem dança], mas somente o amor praticado ao próximo [conforme Romanos 13] e as súplicas [conforme Apocalipse 8] têm aparo no que foi escrito para adoração), tanto pela superioridade da aliança em vigor, quanto pelo que dele foi muito bem dito que “não habita em templos feitos por mãos de homens. Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas”. A este o mérito e a gratidão, por toda a eternidade, que assim seja!

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